Sonhos lúcidos a cada cinco minutos.
Sinto vontade de falar mas não consigo.
Ou quero só pensar, mas falo.
Sede. Ressaca. 24 horas sem comida e sem bebida, acordo sem um órgão e não posso tomar um gole de água.
Tento virar de lado, sinto meus órgãos escorregando dentro de mim.
Tento me virar para o outro, a mesma sensação.
Meus glúteos, quentes pelo contato com o lençol, agora doem.
O soro na veia corrói o espírito, o psicológico, ao ponto de atingir o físico. A agonia de ter algo espetado no meio do seu braço por um dia inteiro é indescritível. Não dá para dobrar o braço. Depois de um tempo, a mão começa a inchar e fica fraca.
Vontade de ir ao banheiro. O soro não mata a sede, mas hidrata. Dor. Agonia. Tudo gira. Tento descobrir se é mais um sonho ou se realmente preciso me levantar tentando flexionar o mínimo possível os músculos abdominais para não sentir dor, carregar um cabideiro gigante cuja ponta está em uma veia minha - e ainda subir a camisola, abaixar a roupa de baixo, pegar papel higiênico e dar descarga. Dar descarga precisa de força. Não consigo.
Ter os amigos por perto neste momento traz uma sensação de carinho tão grande quanto a dor das risadas que eles provocam. Sorrir dói.
Comer dói. Se mexer dói. Ficar parada dói. Tentar achar uma posição que doa menos dói mais ainda.
A melhor opção é se entregar à tal da anestesia geral que insiste em não ir embora e continuar fazendo efeito, e dormir. Dormir causa sonhos lúcidos que confundem, mas não dói. Acordar achando que mora em São Paulo e teve um pesadelo, confundir a realidade com o sonho e não ter certeza de onde você está ou o que está fazendo ali.
Na procura por respostas, abro o olho e tento me mexer. Dor.
Nas poucas horas de pseudo-lucidez o que toma conta é o enjôo. Doses cavalares de Plazil não adiantam, a anestesia geral é mais forte que tudo. Vomito o remédio.
Algum tempo depois - minutos? horas? dias? onde estou, mesmo? - a vontade de vomitar volta. Sem alimento, sem bebida e sem remédio diluído no soro, não há o que colocar para fora. Contrações. Decidi neste momento que nunca serei mãe biológica. Contrações de vômito acontecem na região abdominal, exatamente a área que deveria ficar intacta no meu corpo. Mais dores. O quarto girava enquanto ficava escuro e meus curativos, vermelhos.
A dor se mistura à anestesia geral e desmaio. Não sei por quanto tempo. Acordo querendo que este pesadelo acabe, mas as horas se arrastam enquanto meus devaneios não param.
A noite chega com o sono de um dia de tormento. A enfermeira entra com a medicação, mais anestesia? Não sei, mas durmo como um anjo até acordar no dia seguinte com alguns incômodos, mas sóbria e sem ressaca. Ela deveria ter me dado aquilo desde o momento em que acordei depois da cirurgia, teria evitado tanto sofrimento. Tiram a agonia da minha veia. O alívio é tão grande que me esqueço dos curativos abdominais - que logo são lembrados após uma pequena tosse.
Estou livre para voltar para casa, onde a cama e o travesseiro se ajustam ao meu corpo, ninguém me enfia nada pelo sangue a cada 40 minutos e não há mais tantos resquícios da anestesia geral que tanto me incomodaram, mas que fizeram desta uma das maiores experiências da minha vida.

0 comentários:
Postar um comentário