terça-feira, 30 de outubro de 2012

Intercâmbio

Existem muitas definições por aí. Textos com tentativas de definições, na verdade, que contam como funciona cada programa, o quanto se aprende o idioma em pouco tempo, como é possível conhecer diversos locais e pessoas, enfim, dão um geral sobre os aspectos tangíveis ou mensuráveis sobre essa experiência.

Meu primeiro intercâmbio foi aos 14 anos e eu, que sonhava e pesquisava sobre isso desde bastante tempo antes, achava que sabia o que me esperava do outro lado do mundo por causa de tudo que li a respeito na internet. A experiência foi ótima mas não foi das melhores, e em meu segundo intercâmbio, aos 21, eu entendi a importância da combinação do programa com o perfil da pessoa, e que o aprendizado na verdade é muito maior do que o divulgado por aí.

O que buscamos ao fazer intercâmbio, além do óbvio aprendizado do idioma, é o contato com a cultura do país, a possibilidade de conhecer pessoas novas e cidades completamente diferentes, além dos pontos turísticos e lugares "dos sonhos", presentes em tantos filmes assistidos, fotos e vídeos frenquentemente vistos na internet e na televisão.


Acontece que o contato com o novo, a exposição ao diferente - a vários diferentes - faz a pessoa querer se comparar, e para isso ela olha "de fora" para si mesma. Esse é o primeiro passo para o autoconhecimento, o conhecimento mais desenvolvido e mais causador de mudanças em um intercâmbio.

A exposição a situações nunca antes vivenciadas, a necessidade de socializar com pessoas completamente diferentes e totalmente desconhecidas, a curiosidade sobre as diferenças, a responsabilidade de lidar com um dinheiro diferente (a um câmbio muitas vezes nada amigável), e de suprir suas próprias necessidades - todas elas, de afeto às compras mensais - faz a pessoa refletir sobre si mesma.

A solidão traz a reflexão sobre as atitudes pessoais e coletivas, sobre a vida só e em sociedade. As diferenças ressaltam o que há de melhor e pior em cada país e cultura, aumentando a compreensão e adaptabilidade e mudando valores, muitas vezes fazendo a pessoa valorizar mais seu país e sua família e repensar sobre suas atitudes.

Não posso dizer que são tudo flores, os atrativos do exterior também causam decepções com o Brasil. Dá vontade de ficar lá, apesar da saudade. Mas também dá vontade de voltar e contribuir para que as coisas sejam diferentes. A visão ampliada do eu também traz a consciência do primeiro que deve mudar antes de ser agente de mudança.

Ao inevitavelmente voltar ao Brasil, fazemos questão de valorizar o avanço do idioma no período fora, as amizades multiculturais conquistadas e os conhecimentos gerais aprendidos. As pessoas ao nosso redor valorizam silenciosamente - ou às vezes fazem questão de comentar sobre - nossa força de vontade potencializada, a tolerância, compreensão e bons hábitos desenvolvidos e uma série de outras qualidades que desenvolvemos sem perceber, enquanto achávamos que aprendíamos sobre o outro, enquanto na verdade nos conhecíamos lá fora.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Israel - quinto marcante dia

Eu demoro, mas continuo e termino quase tudo que começo. A motivação para voltar a escrever sobre Israel veio de um amigo, que pediu que eu escrevesse sobre a experiência, e do intercâmbio na França, para o seu blog. Demorei tanto para começar uma e terminar outra (esta série de postagens sobre minha viagem), que meu amigo resolveu ir conhecer Israel com seus próprios olhos. hahahaha

Ele se inscreveu no mesmo programa que participei, e foi selecionado. Cabalística é a data da viagem: 2 de janeiro, meu aniversário. Tenho certeza que ele vai escrever para o próprio blog sobre a experiência, por isso vou continuar a série aqui e escrever sobre a França para ele.

Cemitério Har Herzl

Meu quinto dia em Israel foi um dos mais marcantes, e um dos que mais aprendi. Acordamos cedo, como de costume, tomamos café, fizemos o check-out e fomos para o Har Herzl, ou Monte Herzl, um cemitério no lado oeste de Jerusalém.

O nome do cemitério é uma homenagem a Theodor Herzl, o fundador do moderno Sionismo político, visionário do Estado de Israel, que está enterrado lá.


Túmulo de Theodor Herzl


Algumas áreas do cemitério são militares, com um memorial aos soldados que lutaram em defesa de Israel.

Em Har Herzl também estão enterrados líderes sionistas, alguns presidentes e três primeiros-ministros israelenses, entre eles Yitzhak Rabin, cuja história conhecemos alguns dias depois, em Tel-Aviv.



Shawarma. Foto da internet.
Do cemitério fomos para o mercado ao ar livre Manaché Yehuda almoçar. Lá comi pela primeira vez shawarma, um prato árabe, que é um churrasco de cordeiro (neste lugar, mas já vi com outras carnes) assado num espeto vertical. Fatias mais finas do que as do churrasco que estamos acostumados são tiradas, e o restante fica assando, no espeto. Foto da internet.

O churrasco é servido na pita, que é o pão sírio, usado para alimentação com as mãos no país. A salada que eu não peguei, era tomate e pepino - para variar, tinha isso até no café da manhã em todos os lugares, e tinha outras coisas que até hoje não sei o que eram também, além do molho delicioso tahine, que eu amo de paixão e hummus. Desculpas a quem lê, mas não dá para explicar o que é cada ingrediente. Mas estava delicioso. E foi servido com batatas fritas.


A tarde estava reservada para o Yad Vashem, que só dá para definir o que é com a Wikipedia: "Autoridade de Recordação dos Mártires e Heróis do Holocausto". Sem dúvidas um dos lugares mais ricos fantásticos onde fui na minha vida. Começando pela vista, que aproveitei para registrar, já que dentro do museu isso não seria possível.

Eu, contemplando a vista do Yad Vashem
Sem dúvida o local é o maior memorial do Holocausto do mundo. O museu é moderno, com vários recursos audiovisuais de qualidade. Recebemos um aparelho tipo walkie-talkie que nos ligava a guia do grupo, que contava muitas histórias e dava explicações durante a visita.

No museu há desde objetos pessoais de vítimas do holocausto a testemunhos dos sobreviventes, tudo em ordem cronológica, o que facilita o entendimento e o sentimento. É difícil explicar o que se sente naquele lugar.

Ao final, há a Sala dos Nomes, memorial aos 6 milhões de judeus assassinados no Holocausto. Na internet tem algumas fotos, é lindo. Lá também tem computadores que acessam o maior banco de dados de vítimas do Holocausto, também disponível no site da organização. Vale a pena ler mais sobre o local, é um trabalho  memorial muito bonito.




Do lado de fora do museu há o Jardim dos Justos Entre as Nações. Sabemos que certos não-judeus se arriscaram para salvar os judeus durante a guerra. Esses casos foram analisados e mais de 22 mil pessoas receberam um certificado e uma medalha em reconhecimento e agradecimento pelos seus feitos, tendo seus nomes registrados no jardim.



Vagão de um trem usado na guerra, Yad Vashem


Além disso, há vários objetos artísticos e relacionados ao Holocausto fora do museu, como um vagão de trem que foi usado para levar os judeus a um campo de concentração.

O Yad Vashem é um tesouro que eu espero que dure eternamente. Vale a pena ler mais sobre isso, para quem se interessa no tema Holocausto.



No final do dia estávamos tristes com o que vimos no museu. Felizmente, o hotel para onde fomos era ótimo (o  melhor da viagem, devo dizer), com um grande jardim e uma piscina, e recuperamos as energias. À noite, fomos a uma balada na rua Ben Yehuda, que apesar da música diferente (não era nem em hebraico, era pop antigo) foi bem legal. A noite terminou bem, sem exageros, pois 7h da manhã teríamos que acordar para continuar a viagem: era dia de conhecer Tel Aviv.

Tem sido muito bom rever tudo que aprendi no intercâmbio, ao escrever essas postagens. Creio que em breve terminarei meu pós-diário de viagem. :)

sábado, 20 de outubro de 2012

Eu vejo muitas pessoas reclamando diariamente por não serem ouvidas, por passarem frequentemente por situações desagradáveis ou que poderiam melhorar e "ninguém faz nada". Mas eu também vejo muitas propostas de mudança mal elaboradas, focadas num só ponto de vista.

Vejo negligência e individualismo em muitas "preocupações" sociais, as eleições no Brasil são um bom exemplo, dá até preguiça de comentar. Mas nada me incomoda mais do que a fuga das responsabilidades, que eu não sei se é condição de boa parte dos brasileiros ou dos seres humanos, pois a quantificação me ocorreu somente agora. Sei que faço parte dessa turma, até certo nível.

As pessoas querem ter "voz", poder de decisão, mas não querem assumir as responsabilidade pelas consequências das mesmas. Acham absurdo terem chefes no pé, mas sem acompanhamento não realizam metade do que é esperado de suas funções. Esperam milhares de ações do governo, mas não frequentam as reuniões que (poucos deles) fazem com a população, ou pelo menos tenta fazer, só que ninguém aparece.

Por outro lado, pessoas de influência, poder e dinheiro (se é que não é errado colocar assim, já que geralmente um está diretamente ligado ao outro), que poderiam fazer alguma diferença, para o bem, muitas vezes cruzam os braços por estarem muito confortáveis onde estão, obrigada. Ou estão muito ocupadas com questões particulares, e o todo é apenas consequência em suas vidas - egocentrismo total.

Fuga das responsabilidades e comodismo se assemelham muito no meu pensamento sobre esse assunto. Porque por outro lado, para muitos é fácil aceitar o sistema e sua ordem, deixar que tomem as decisões por eles nos assuntos em que deveriam se preocupar mas não se envolvem o suficiente. Afinal de contas, se der errado, a culpa não é deles, eles só seguiram o que foi proposto.

Se por um lado eu já me revoltei muito interiormente - com algumas consequências externas - por não ter voz, hoje eu vejo que se eu tivesse tido mais liberdade em certas situações da minha vida, eu teria tomado algumas decisões erradas, muito mais do que as que tomei ouvindo conselhos anteriormente.

O Colégio Militar me ensinou (mas eu só aprendi bem mais tarde) que a ordem é necessária. A gestão participativa é muito bonita no papel, mas eu não acredito em liderança 100% democrática. A necessidade e a existência de uma liderança já pressupõe a incapacidade dos indivíduos de organizarem e dividirem responsabilidades mutuamente e em acordo.

Refletindo sobre tudo isso eu entendi a justificativa para uma atitude que tenho, que o zodíaco atribui ao meu signo, mas que talvez seja apenas resultado de tudo o que vivi e que formou quem eu sou e como vejo o mundo hoje. Eu tenho tendência a ser centralizadora em situações de grande interesse para mim. Cheguei à pessimista conclusão de que não é possível obter a cooperação equilibrada em um grupo onde há motivações em níveis diferentes. Provavelmente alguém já descobriu e escreveu sobre isso muito antes, mas agora que vivencio e tomo consciência do fato.

Assim, quando a minha motivação é muito maior, e a liderança democrática não funciona, é mais fácil eu pegar o trabalho para fazer sozinha. O problema é que quando o resultado não é satisfatório, a culpa é minha - afinal, os outros concordaram e fizeram o que foi mandado, ou eu assumi a responsabilidade total em algum momento. Isso dificulta o trabalho em grupo e tem sido tema de reflexão em minha mente com frequência nos últimos tempos.

Tudo isso tem me dado uma preguiça de discutir, de comentar, de escrever nesse blog! Sei que o sistema corrompe e me vejo como mais uma a ser levada por ele na corrente do conformismo. O que é ruim para a minha prática da escrita, pois o que me inspira na maior parte das vezes é alguma revolta interior, pessoal ou provocada pela empatia, qualidade que tento preservar e que falta nessa sociedade tão preocupada com seus próprios problemas.

Para não mergulhar na inércia a alternativa é o autoconhecimento e a mudança pessoal. Assim eu espero bem menos do outro, e acredito que a mudança e as consequências positivas sejam maiores ou mais relevantes do que no caos organizado que são os vários grupos sociais dos quais faço parte, diretivos ou participativos (mas nunca em pleno consenso da eficácia da autoridade ou da liderança), pois depende apenas de mim - ninguém é hipócrita consigo mesmo.