sábado, 18 de dezembro de 2010

Depoimento

Sabe quando a gente é criança e tem hábitos engraçados, que ninguém realmente dá muita bola, e um dia, depois de crescidos, nos lembramos deste hábito e vemos o quanto aquilo foi importante na nossa vida?

A minha ficha caiu cerca de três anos atrás, em um dia em que eu estava lembrando das viagens que fazia quando pequena com meus pais. Quando íamos de carro, meu passatempo preferido era ficar lendo o Guia 4 Rodas e comparando as cidades e, principalmente, os hotéis.

Descobri uma grande paixão por hotelaria. Por vários motivos, nunca havia trabalhado na área, mas já era um plano me especializar após terminar a graduação, e quem sabe um dia abrir o meu próprio hotel - numa cidadezinha de interior, estilo o hotel que a Lorelai é gerente, em Gilmore Girls.

Mês passado surgiu a oportunidade, me empolguei, porque não fazia idéia de que eles pagavam tão bem e... comecei, dia 17 de novembro, no meu novo emprego em um dos hotéis de uma grande rede multinacional.

O mundo da hotelaria de situa em outro planeta. Quando entro no hotel todos os dias para trabalhar, o mundo lá fora morre, e eu entro neste ambiente maravilhoso - com uma estrutura espetacular, uma sincronia absurda de milhares de pessoas, de criaturas maravilhosas e seres humanos interessantes - as criaturas são os hoteleiros, e os seres humanos, os hóspedes.

Cada dia é um dia diferente, não importa a sua rotina de trabalho. Saber lidar com gente é um dom, que eu possuo e amo. Todos os dias me surpreendo com uma personalidade diferente, com fatos engraçados, com situações específicas que ensinam.

Mas este mundo exige o sacrifício de finais de semana, feriados, dias santos e ocasiões especiais. Em dias e situações específicos, é difícil saber quando você terá folga, ou que horas vai sair do trabalho. E isto me trouxe a um dos maiores paradoxos da minha vida: hotelaria definitivamente não é o que quero para a minha vida - sinceramente, prefiro ser hóspede que gerente de um hotel; mas eu estou simplesmente APAIXONADA pelo meu trabalho.

Eu não sei explicar direito o que sinto. Nunca me senti assim com relação a trabalho nenhum. Mesmo com as chateações que acontecem, mesmo eu trabalhando sábado e domingo e folgando na terça, mesmo sabendo que querem que eu trabalhe no ano novo e no meu aniversário, eu simplesmente estou com o coração despedaçado de ter que sair de lá.

É como a bebida púrpura do livro O Dia do Curinga, de Jostein Gaarder: você deve provar apenas uma gota, e depois nunca mais deve tomar a bebida na sua vida - exatamente por ela ser muito, muito, extremamente, inexplicavelmente maravilhosa.

E a explicação do livro é simples: o estado constante de êxtase, no ser humano, emburrece. A felicidade contínua impede o raciocínio, que é tão fértil nos momentos de adversidade.

E não quero ficar burra, ou acomodada, com a satisfação social e monetária que a hotelaria me proporciona. Acredito que o choque da saída deste emprego possa ser comparada a um parto - a saída de um ser frágil de sua redoma de proteção e conforto - mas é o melhor para mim.

E para quem tem garra e não é tão estupidamente apegado aos descansos semanais, vida social fora do trabalho, e datas comemorativas, eu digo: não existe melhor lugar para se trabalhar, do que um hotel.

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